Vai ter Mountain Bike na Floresta, SIM!

 

Após inúmeras tentativas, Federação Paulista de Mountain Bike consegue autorização para a regulamentação das trilhas de mountain bike no interior da Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade, em Rio Claro, SP.

 

 

(A FEENA possui inúmeros singletracks e belas estradas para se pedalar em meio aos eucaliptos, para todo tipo de ciclista de montanha)

 

Desde o ano de sua fundação, em 2009, um dos objetivos centrais da Federação Paulista de Mountain Bike – FPMTB era a criação de diretrizes para a regulamentação da atividade de mountain bike em Praças, Parques e Florestas Estaduais. No município de Rio Claro, cidade sede da entidade, não poderia ser diferente.

A Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade - FEENA é a segunda maior floresta de eucaliptos do mundo, possui mais de 180 km de estradas carreadoras (aceiros) e 17km de trilhas (singletracks) pedaláveis, e nenhum metro sequer de trilha regulamentada para bicicleta. Ao contrário de outros Parques e Florestas Estaduais não há sinalizações, regras de uso e nem infraestrutura de suporte disponível para atender o visitante que quer pedalar ali.

Após muito trabalho e graças a inúmeras parcerias com empresas locais, a Federação conseguiu, no ano de 2010, viabilizar o projeto de restaurar um imóvel em ruínas, sob concessão de uso, para implantar sua sede administrativa no local.

 

(Antes e depois do restauro da Casa 73, sede da Federação Paulista de Mountain Bike na FEENA)

 

Embora o mountain bike (bicicleta de montanha) seja um esporte olímpico muito difundido e praticado em todo país e, inclusive, dentro da própria Floresta, o “ciclismo” é descrito como atividade conflitante no Plano de Manejo da FEENA, que foi confeccionado em 2005 e está desatualizado. Essa contradição, mesmo muito questionada pela FPMTB, prevalece até os dias de hoje.

Segundo dados da FPMTB coletados em 2012, existem mais de 200 ciclistas em média, que pedalam diariamente no interior da Floresta. Esse número chega próximo aos 1.000 ciclistas em alguns finais de semana e feriados. Como o aumento do número de vendas de bicicletas de montanha na cidade teve crescimento de 150% nos últimos 5 anos e o de ciclistas filiados a FPMTB também cresceu 380% no mesmo período, estima-se que o número de ciclistas que pedalam diariamente na FEENA seja ainda maior atualmente.

“Andar de bike pelas trilhas da Floresta é maravilhoso, esse contato com a natureza, ao mesmo tempo poder fazer o que se gosta e, de quebra, praticar saúde, não tem preço. É um privilégio. E todos podem fazer, pois, está aí, ao alcance de todos, seja pedalando, como no meu caso, seja caminhando, ou até mesmo apenas por passagem.” – Comentou o ciclista e fotógrafo Giorgi Bastos, que pedala quase diariamente na FEENA.

 

(Muitos ciclistas, como a turma chamada “Vou se eu quiser” pedalam diariamente na FEENA / Foto de Giorgi Bastos)

 

Porém, a prática do mountain bike sempre ficou à margem da legalidade na FEENA. Constantemente os ciclistas sofrem com a repressão policial e da própria empresa de vigilância da Floresta, principalmente de 2004 a 2006, quando foi proibido que o ciclista pedalasse dentro da FEENA, após a morte da ciclista Camila Silva Novita, vítima de um galho que caiu sobre ela enquanto pedalava.

A prática do Track Building, que é parte da cultura do ciclista e consiste em construir obstáculos e trilhas para evoluir e superar seus limites pessoais no esporte, contribuiu para acirrar ainda mais o conflito entre alguns ciclistas e a administração da FEENA, que logo criou impedimentos e proibições de pedalar e, principalmente, de construir trilhas para a prática do mountain bike no local.

Desde a implantação de sua sede na FEENA, a Federação vem tentando implantar a atividade de forma ordenada e segura e mostrar que o ciclista pode ser um agente positivo para a Floresta, que ajuda na fiscalização, conservação e manutenção do local. Após a realização de inúmeros eventos e atividades em apoio a gestão e do envio de doze propostas para a regulamentação do esporte, ainda hoje é proibido pedalar em lugares específicos como a Trilha dos 9Km e Trilha da Saúde, que são trilhas voltadas exclusivamente para os pedestres.

“Além de todos os fracassos desmotivadores nas tratativas de organizar o mountain bike no local, em 2014, combatendo ações de incêndio criminoso, eu fui recebido com tiros ao abordar dois homens ateando fogo com gasolina nos eucaliptos da Floresta. Ainda bem que não fui atingido. Mas isso fez com que interrompêssemos o atendimento ao público diário no local, mantendo somente atividades de rotinas, eventos e cursos na sede administrativa de Rio Claro.” – Denuncia Clayton Palomares, Presidente da Federação Paulista de Mountain Bike, que disse não ter feito boletim de ocorrência com medo de sofrer retaliação.

 

(Clayton Palomares, presidente da FPMTB, durante um dia de pedal na FEENA / Foto de Filippo Ferrari)

 

O empasse veio gerando tensão entre os ciclistas e somado aos avanços do governo do estado no corte de eucaliptos sem replantio e manejo, culminou na organização da sociedade civil cobrando providências do poder público. Em novembro de 2016 foi realizado um evento chamado Viva a Floresta, que teve público recorde de ciclistas na Floresta, com 1.319 inscritos, e onde foi lançado o ABAIXO ASSINADO (ASSINE NESTE LINK) pedindo a regulamentação de trilhas de mountain bike na FEENA.

A discussão sobre as questões de segurança ficaram ainda mais evidentes e insustentáveis em fevereiro de 2017 quando faleceu outro ciclista, Diego Sass Oliveira, após levar uma queda sem capacete, quando pedalava no canavial, do lado de fora da FEENA. Movimentos sociais como o Massa Crítica Rio Claro e o Coletivo Pedala Rio Claro começaram a se manifestar e a realizar bicicletadas na cidade e durante os eventos da Floresta para evidenciar o problema e pedir soluções.

Após sete anos de tentativas, desde o início de 2017, a Federação Paulista de Mountain Bike, com o apoio dos ciclistas locais, se uniu a Comissão de Meio Ambiente, Ecologia e Direitos Difusos da OAB – Rio Claro e ao Geopark Corumbataí para apresentar novo projeto de regulamentação da atividade de mountain bike na FEENA e o diálogo vem avançando.

No dia 27 de Setembro, em reunião do Ministério Público conduzida pela promotora Alexandra Faccioli Martins, representando o Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema), de Piracicaba e pelo Promotor de Justiça Gilberto Porto Camargo, a Comissão de Meio Ambiente, Ecologia e Direitos Difusos da OAB Rio Claro apresentou a proposta da inclusão das trilhas, tão reivindicada pela FPMTB, e pressionou para que ela pudesse utilizar verbas do TAC para sua efetivação.

Na reunião, graças a Comissão de Meio Ambiente, Ecologia e Direitos Difusos da OAB Rio Claro, o Ministério Público determinou que o custeio da implantação utilize verbas oriundas do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), de ação civil, referente a tratamento integral de água e esgoto do município e estipulou prazo de Dezembro de 2017 para conclusão da primeira fase do projeto e Dezembro de 2018 para finalização da implementação da atividade na FEENA.

“A implantação das trilhas de mountain bike na FEENA nada mais é que o cumprimento do artigo 225 da Constituição. Isto é, é dever do Estado dar ao cidadão um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Além do que é uma reivindicação antiga de parte da população, se tornando um atrativo turístico que gera fonte de renda e não degrada o meio ambiente.” – Afirmou o Dr. Alexandre Carrille, presidente da Comissão de Meio Ambiente, Ecologia e Direitos Difusos da OAB Rio Claro.

 

(Reunião do Ministério Público onde a FPMTB apresentou a proposta de implantação de trilhas de MTB na FEENA)

 

A notícia vem em boa hora, pois desde a vinda da sede da FPMTB para Rio Claro e acompanhando o crescimento do uso da bicicleta pela população, o município maximizou sua vocação ciclística, vem deixando o trânsito mais seguro ao implantar ciclovias e ciclofaixas e enriquecendo o calendário da cidade com atividades e eventos relacionados a bicicleta. Além da cidade possuir equipes de ponta nos rankins estaduais e nacionais de ciclismo de estrada, pista e mountain bike, também é possível o ciclista comum pedalar todos os dias na cidade junto a grupos e associações de ciclistas, como por exemplo o Passeio Ciclístico Noturno, que acontece todas as terças, com saída as 20h da Praça da Liberdade em frente à Igreja Matriz.

“Ter acesso a uma floresta com as dimensões da FEENA no quintal de casa é um privilégio. Afeta positivamente a saúde da população devido a oportunizar atividades físicas e de lazer ao ar livre, melhora a qualidade do ar e do clima e gera um impacto econômico muito positivo na saúde pública. A economia empreendedora também é fortalecida com a comercialização de produtos que vão além de bicicletas, atingindo todo o life style relacionado ao meio e contribuindo com o poder público no aumento da arrecadação inclusive.” – Comentou o empresário e mountain biker David Botardo.

 

(David e sua esposa Ludmila pedalam todas as semanas na FEENA para recarregar as energias / Foto de David Botardo)

 

Esperamos que o poder público não desperdice a oportunidade a exemplo do que aconteceu em 2013 com as pistas de Dirt Jump e Pump Track que foram abandonadas e fechadas antes mesmo de finalizada sua construção, no canteiro central da Av. Brasil. O local foi projetado para comportar a terceira maior pista de Dirt Jump do mundo, num enorme complexo de Dirt e Street Park, mas foi abandonado pela administração anterior da Prefeitura Municipal.

Breve a FPMTB irá divulgar as regras de uso, mapa definitivo do trajeto e mais informações sobre a implantação deste projeto tão esperado pelos ciclistas de Rio Claro e região, bem como data do evento de inauguração para comemorar esta vitória.

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